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O que as pessoas dizem antes de morrer: relatos de uma paramédica brasileira em Londres

No leito da morte, eu já ouvi muitos pacientes me confidenciarem seus arrependimentos e gratidões mais profundos. Uma vez, uma senhora já muito próxima da morte olhou pra mim, começou a rir baixinho e disse: “Eu devia ter transado mais. ”E aquilo me pegou de uma forma inesperada. Ela disse que passou a vida inteira…

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No leito da morte, eu já ouvi muitos pacientes me confidenciarem seus arrependimentos e gratidões mais profundos.

Uma vez, uma senhora já muito próxima da morte olhou pra mim, começou a rir baixinho e disse: “Eu devia ter transado mais. ”E aquilo me pegou de uma forma inesperada.

Ela disse que passou a vida inteira tentando ser a mulher perfeita. A esposa perfeita. A pessoa correta. Viveu presa no que esperavam dela. E agora, no final da vida, percebia que teve medo demais de viver. Medo de julgamento. Medo de errar. Medo de decepcionar os outros. Ela não estava falando só sobre sexo. Ela estava falando sobre liberdade.

Outro paciente chorou enquanto me dizia que passou a vida inteira trabalhando sem parar para construir estabilidade financeira. Ele conseguiu. Tinha patrimônio. Tinha segurança. Tinha tudo organizado. Mas me disse: “Eu quase não vivi. Sempre achei que ia viajar depois. ”Esse “depois” nunca chegou.

Também nunca vou esquecer de um paciente judeu, sobrevivente do Holocausto, já muito idoso, que me confessou no leito da morte que o maior arrependimento da vida dele foi nunca ter vivido sua homossexualidade.Ele me contou que passou décadas escondendo quem realmente era. Tentando sobreviver. Tentando ser aceito. Tentando caber no mundo.

E então ele falou, com os olhos cheios d’água, que nunca teve coragem de viver o grande amor da vida dele. Eu nunca esqueci aquele olhar. Porque existia uma dor muito específica nele. A dor de alguém que sobreviveu a tanta coisa, mas não conseguiu viver sendo ele mesmo.

Outro homem me disse: “Passei minha vida inteira tentando não errar. ”E depois completou: “Eu fui tão preocupado em não estragar minha vida… que acabei nem vivendo ela direito.” Mas nem todas as despedidas são tristes. Eu também já vi pessoas morrendo em paz.

Uma senhora segurou minha mão, sorriu pra mim e disse: “Eu tive uma vida boa.” E quando comecei a conversar mais com ela, percebi que ela não estava falando de riqueza. Ela estava falando dos almoços de domingo em família. Das viagens simples com o marido. Das risadas. Dos filhos. Das memórias. Do amor que recebeu e do amor que deu.

Depois de ver tanta gente partir, eu nunca ouvi ninguém agradecer por ter tido uma BMW. Uma Ferrari. Uma bolsa cara. Uma casa maior.

As pessoas falam sobre amor. Sobre tempo. Sobre coragem. Sobre experiências. Sobre quem esteve ao lado delas quando a vida estava acabando. Trabalhando diariamente entre a vida e a morte, eu aprendo muitas coisas. Mas nada me ensina tanto quanto a morte. Porque, nos últimos momentos, ela arranca da gente todas as distrações… e deixa apenas aquilo que realmente importou.

Priscila Currie Paramédica é formada desde 2014 pela St George’s University of London e conhecida nas redes sociais como @priscila_paramedica_londres, que diariamente atende ocorrências que poderiam ser evitadas com informação e prevenção.