Leo Bentier trancou a própria ferramenta de inteligência tributária para usá-la sozinho — e mira um alvo que ninguém disputa: as empresas “chatas” que o mercado nunca soube ler.
Há um tipo de empresa que o capital de risco acha pequena demais e o dono não sabe que vale: a distribuidora regional, a clínica de bairro, a pequena indústria de fundador cansado. Negócios chatos mas estáveis, lucrativos e mal organizados, que trocam de mãos no escuro, sem banco, sem disputa, sem preço. É nesse ponto cego que Leo Bentier diz ter encontrado a sua tese.
Bentier como é conhecido no mercado não é um nome novo para quem acompanha o debate econômico fora do mainstream. Sua newsletter – lida por mais de 662 mil assinantes – virou uma das vozes mais secas do país sobre negócios, dados e inteligência artificial, com a reputação de defender teses desconfortáveis antes de virarem consenso. É essa mesma frieza analítica que ele agora aponta para um alvo improvável: comprar empresas chatas.
A comparação que ele evita em público, mas que descreve o desenho, é com os fundos quantitativos que há quatro décadas trocaram intuição por disciplina sistematizada. “O mercado financeiro descobriu que regra bate feeling. O resto da economia ainda decide no olho. A oportunidade não é ser mais esperto que os outros – é ser sistemático onde ninguém é”, afirma Leo Bentier.
A peça central dessa história é também a sua decisão mais contraintuitiva. A Seferu nasceu para ser plataforma: inteligência tributária vendida em escala a contadores, advogados tributaristas e empresas, no rastro da maior reestruturação fiscal do país em quarenta anos. Bentier construiu o produto, desenhou os planos comerciais – e então fez o oposto do que se espera de um fundador de software. Fechou a porta.
“Eu ia vender o raio-x para o mercado inteiro. Aí percebi: se a ferramenta é boa a ponto de eu apostar capital próprio no que ela aponta, ela é boa demais para colocar na mão de todo mundo. No dia em que eu vendo o motor, fabrico meus concorrentes e encareço justamente o mercado que quero comprar”, diz Leo Bentier.
Hoje, a Seferu não atende cliente externo. Tornou-se motor proprietário, apontado para uma única pergunta – quais negócios mal estruturados valem a compra – e o site da empresa virou vitrine de uma tese, não de um produto. O paralelo com os fundos que mantêm seus melhores modelos trancados a estranhos é deliberado. “O edge que você explica deixa de ser edge”, resume Bentier.
O mecanismo parte de uma assimetria brasileira. Enquanto lá fora a melhoria de uma pequena empresa adquirida costuma ser operacional e lenta, aqui boa parte do valor está soterrada na desorganização fiscal: regime errado, créditos não aproveitados, lucro subdeclarado por pura falta de gestão. “Lá fora você compra e otimiza a operação. Aqui você compra e, antes de tudo, organiza o imposto – e isso muda o caixa de forma permanente, não cosmética”, afirma Leo Bentier.
Especialistas em fusões de menor porte apontam que o gargalo de uma tese assim nunca é a análise – é o capital e a operação. Comprar é caro; ser dono de um punhado de empresas pequenas é trabalhoso. Bentier responde desviando do flip. “Não compro para revender. Compro fluxo de caixa mal precificado, conserto de forma permanente e seguro. O ativo é o portfólio, não a venda”, diz Leo Bentier.
O leitor fecha a reportagem com uma pergunta que Bentier deixa de propósito sem resposta: e se o valor que ele encontra nas empresas dos outros estiver, também, parado dentro da minha? Ele não diz. Quem quiser saber terá de chegar até ele – e, no modelo que ele desenhou, chegar até Bentier raramente significa contratá-lo. Significa sentar do outro lado de uma mesa de negociação.
